A crise financeira dos Correios atingiu em 2025 o seu ponto mais crítico, com um prejuízo de R$ 8,5 bilhões, conforme balanço divulgado nesta semana. O resultado representa uma forte deterioração das contas da estatal, com o rombo triplicando em relação ao ano anterior e marcando uma sequência de 14 trimestres consecutivos de perdas. O valor equivale a 15,45% do déficit fiscal consolidado do setor público, que somou R$ 55 bilhões no ano passado.
O agravamento do cenário vem sendo observado nos últimos anos. Em 2024, o prejuízo foi de R$ 2,6 bilhões, enquanto em 2023, primeiro ano do atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a estatal registrou perdas de R$ 597 milhões. No acumulado dos últimos três anos, o resultado negativo chega a R$ 11,7 bilhões, o que representa um aumento expressivo de cerca de 1.300% no período.
Após um período de resultados positivos iniciado em 2017, os Correios voltaram a registrar prejuízos a partir de 2022, em um movimento que se intensificou até o cenário atual. Em resposta, a empresa apresentou um plano de reestruturação baseado em três eixos principais, recuperação financeira, consolidação do modelo de negócios e crescimento estratégico. Apesar disso, os resultados ainda não atingiram as metas estabelecidas, embora a estatal projete retorno ao lucro até 2027.
Entre as medidas adotadas, o Programa de Desligamento Voluntário era uma das principais apostas para reduzir custos. A meta era alcançar 10 mil adesões, mas cerca de 3 mil funcionários aceitaram a proposta, menos de um terço do esperado. A economia gerada até o momento corresponde a aproximadamente 40% da projeção inicial de R$ 1,4 bilhão até 2027.
Especialistas apontam uma combinação de fatores para explicar a deterioração financeira, incluindo o aumento da concorrência com empresas privadas de logística, mudanças no mercado de entregas e excesso de pessoal. Para o professor de economia Fábio Andrade, a baixa adesão ao programa de desligamento também está relacionada à estabilidade do setor público, o que dificulta a redução do quadro de funcionários. Ele sugere que alternativas como a reestruturação mais profunda ou até a privatização parcial de atividades podem ser caminhos possíveis para recuperação da empresa.
A discussão sobre a privatização dos Correios não é recente. Em 2021, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, uma proposta chegou a ser enviada ao Congresso, mas acabou retirada da pauta em 2023 pela atual gestão federal.
Paralelamente, a estatal tenta reforçar o caixa com a venda de ativos. Até o momento, foram comercializados 11 imóveis, com arrecadação de R$ 11,3 milhões. Também foram realizados ajustes na rede de atendimento, com o fechamento de 68 unidades em 2026, dentro de um total de cerca de 10 mil agências espalhadas pelos 5.570 municípios brasileiros.
Representantes do setor destacam ainda a necessidade de discutir o modelo de financiamento da empresa. O presidente da Associação dos Profissionais dos Correios, Roberval Borges, afirma que o serviço postal universal exige novas fontes de sustentação, citando modelos internacionais que incluem aportes do governo ou fundos financiados por empresas privadas. Ele também critica a gestão anterior, apontando falta de medidas efetivas diante de problemas que impactaram a receita, como mudanças no fluxo de encomendas internacionais.
A crise também teve reflexos internos. Em 2025, a então diretora financeira Maria do Carmo Lara foi demitida após o agravamento do déficit. Procurada, ela não comentou o caso. Em nota, os Correios afirmaram que mudanças na diretoria seguem critérios técnicos.
A estatal sustenta que o resultado negativo de 2025 foi impactado principalmente pelo aumento dos custos operacionais e pelo reconhecimento de obrigações judiciais acumuladas de gestões anteriores. Segundo a empresa, cerca de R$ 2,63 bilhões do prejuízo estão relacionados ao pagamento de precatórios e contingências judiciais, medidas que, de acordo com a direção, visam garantir a sustentabilidade futura da organização.
Diante desse cenário, os Correios enfrentam o desafio de reequilibrar suas contas em meio a transformações no setor logístico e à necessidade de manter a prestação de serviços em todo o território nacional.





























































